Especialista ou Generalista?

Especialista ou Generalista?

No dia 25 de abril de 2017 participei de uma mesa-redonda com outros profissionais para falar de Animação no Mercado Nacional. Por animação entende-se não apenas a animação tradicional mas também o motion design.

O evento aconteceu no VI Media Week do curso de Sistemas e Mídias Digitais da Universidade Federal do Ceará (UFC). Eu não tinha muito conhecimento sobre, mas o curso em questão envolve disciplinas extremamente “distantes” uma da outra. Faz parte da grade curricular, por exemplo: aulas de desenho, programação e modelagem 3D. Essa interdisciplinaridade acabou me levando a escrever esse artigo, porque desde o evento no campus eu fiquei pensando sobre essa sempre importante questão: ser especialista ou generalista?

Vou me usar como exemplo, se vocês permitirem. Depois de ter largado Direito e ter ficado um tempo no limbo antes de cursar Design Gráfico , o que me cativava na área criativa era um negócio chamado matte painting. A ideia de misturar pintura com colagem de fotos e 3D para compor cenários era algo incrivelmente fascinante – mesmo que na época eu não soubesse desenhar nada e não manjasse absolutamente nada de Photoshop e muito menos 3D.

Acontece que eu nunca na minha vida trabalhei com matte painting e sequer fui atrás de estudar também. Logo conheci o After Effects e quando percebi já era Motion Designer. Mas ainda era um Motion Designer em aprendizado. Não sabia nada de desenho, nada de direção, nada de 3D. Percebia através do Vimeo que o trabalho dos meus referenciais estava bem distantes ainda dos meus – que eram todos muito parecidos.

Mais ou menos nessa época eu decidi virar freelancer e, em pouco tempo, bateu um estalo. E se surgirem melhores motion designers? E a galera que estuda e pratica mais do que eu? E a juventude sem muitas ou nenhuma responsabilidade cheia de energia e disposição? Tudo bem, isso soa papo de velho, mas pensar no futuro faz parte de todo e qualquer planejamento de carreira. Você já fez o seu?

Mais especialidades = mais clientes

A resposta: aprender 3D. Na época, eu já era Motion Designer e usava o Cinema 4D, mas não sabia realmente 3D. Não sabia como modelar objetos complexos, nem como abrir UV, nem dominava todos os aspectos de luz e render. Afinal, o trabalho de motion nunca demandava esse tipo de coisa. Até que aconteceu! Um cliente queria fazer um Motion 2D, misturado com alguns elementos em 3D – elementos estes que eu teria que modelar e renderizar. Putz! Mas eu não sabia modelar. Só criava algumas formas básicas à partir de um cubo. “Porra, Dimitri, mas é só comprar no Turbo Squid… certo? Errado! Os objetos eram produtos especialíssimos do cliente e não estavam disponíveis para venda em nenhum marketplace 3D. “Ah, Dimitri, então contrata alguém para fazer”. Opa! Essa é uma realidade plausível. Mas, como explicar subitamente a elevação de custos no meu orçamento prevendo também todo o trabalho do profissional 3D que eu teria que terceirizar? No mundo real, nem sempre mais trabalho quer dizer mais dinheiro disponível. Eu orcei alguns valores mas todos aumentavam drasticamente o valor final para o meu cliente. No final das contas, geralmente, uma pessoa que faz duas coisas ainda é mais barato que duas pessoas diferentes nas contas de um orçamento.

Então aprendi mais sobre 3D e não demorou para que os primeiros trabalhos em 3D surgissem. Na verdade, era um trabalho de Motion e 3D. Meu primeiro trabalho profissional com 3D – 3D de verdade – foi logo uma pedreira. Criar vários personagens para uma campanha do maior grupo de comunicação do Ceará.

No fim eu decidi ser generalista para aumentar minhas habilidades e manter minha relevância no mercado criativo – que muitas vezes é ingrato, extremamente volúvel e com gente mais resistente do que nós para aguentar noites em claro e finais de semana trabalhando. Se um dia deixar de ser freelancer e for buscar uma vaga numa agência ou estúdio, eu tenho certeza que o meu portfólio vai ser um carro chefe na concorrência. E isso vale muito em qualquer cenário onde a competitividade exige cada vez mais das empresas, dos profissionais e garante que você seja indispensável onde quer que você trabalhe. Há vagas para especialistas? Mas é claro que há! Mas elas são pequenas e disputadíssimas por verdadeiros talentos que focam a vida em serem os melhores exatamente naquela coisa (e isso muitas vezes vem com muitos sacrifícios). O que eu vi é que em vez de concorrer contra outros profissionais cada vez mais capazes em certa especialidade, melhor seria ter mais especialidades para ter mais opções de trabalho como consequência.

De lá pra cá, eu continuei sendo Motion Designer. Mas, subitamente, meu trabalho de motion deu um salto: melhores modelos, melhores luzes, melhores texturas. Surgiram vários outras demandas: personagens, produtos, letterings, tudo 3D. E a conclusão disso para mim foi: entre 30 e 50% dos meus trabalhos não eram mais de Motion Design e sim de 3D – de produtos à personagens. Eu deixei de ser Motion Designer? Não! Mas expandi minhas capacidades e isso me tornou um profissional mais qualificado e também desejado.

Paciência é a chave

A grande questão: como dominar várias coisas diferentes? A resposta: paciência. Eu só parti para o 3D quando meu trabalho de Motion Design já estava num nível bom o bastante para já pegar inclusive trabalhos internacionais. Ainda não era o bom que eu queria, mas já era o suficiente para muitos projetos de diferentes níveis e valores. Gosto de pensar isso tudo como a jornada dos estudos. Primeiro vem a faculdade, depois a especialização, o mestrado, doutorado. Essa então é uma jornada que já leva 10 anos… e contando. 

Então primeiro o Motion, depois o 3D, depois os Personagens… o que vem depois eu não sei. E vocês?😊

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3 Comments

  1. Lendo agora esse seu post, e era justamente sobre esse assunto de ser “especialista ou generalista”! E me veio justamente isso, tenho que ser generalista, tenho que entender e saber de varias coisas. Por exemplo, hoje tenho um conhecimento que eu considero um pouco avançado em After, mas sofro as consequências em novos projetos por não ser um designe, foquei muito em After e deixar de lado essa parte. Então agora vou focar na área e em paralelo vou aprimorando o after. E também li um outro post seu falando justamente disso, que antes de After e cinema 4d seja um bom designe, e me fez abrir os olhos mais ainda sobre o assunto. Então agora vou me aprofundar nos estudos pra entender mais sobre a área pra me tornar um profissional mais completo. Por enquanto estou sendo apenas motion, tenho que me tornar um motion designer…rsrsr
    Abraços Dimitri, você é um grande profissional, acompanho bastante seus projetos.

    1. Que bom que os textos reforçam o que você já sente, Ulisses! Você só tem a crescer se buscar mais conhecimento para você. E conhecimento pra valer, os fundamentos que fundam a sua trajetória. Pode contar conosco e muito obrigado pelo elogio, hehe.

  2. Lucas Guilherme

    O que vem depois é o UX motion cara kkk tbem to nesse caminho, enveredei pelo 3D e agr to estudando VR e motion para experiencia de usuário! 😀 muito bom seu artigo, cai aqui de paraquedas e valeu a pena, parabéns.

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